Em entrevista à AEAMESP, médico patologista, pesquisador e professor da USP defende a expansão das redes sobre trilhos como instrumento de planejamento urbano, saúde, inclusão social e qualidade de vida.
São Paulo, 21 de setembro de 2026 — Entre os momentos de destaque da 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, a provocação feita pelo médico patologista, pesquisador e professor da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva, repercutiu no setor de mobilidade.
Ao sugerir que a iniciativa privada — especificamente o setor farmacêutico — participe mais ativamente do financiamento de expansões do metrô, o especialista colocou no centro do debate a necessidade de integrar o planejamento do transporte de massa sobre trilhos à promoção do bem-estar e da inclusão social.
“O Metrô reduz a necessidade de viagens por meios individuais. Sua expansão deve seguir também critérios de saúde, seja para evitar a perda de horas no trânsito, o sedentarismo compulsório ou a exposição contínua às impurezas nos corredores viários. É como se ficássemos inevitavelmente próximos de fontes emissoras de poluentes, sem oportunidades de defesa”, observa Saldiva.
O especialista lembra que a degradação da qualidade do ar nas grandes cidades influencia diretamente a qualidade de vida e a longevidade da população. Esse cenário interfere na prevenção e no tratamento de doenças, pressiona o sistema público de saúde e demanda recursos que poderiam ser destinados a outras áreas.
Segundo Saldiva, a perda de tempo em congestionamentos também afeta a quantidade e a qualidade do sono, compromete relações familiares e sociais e gera custos financeiros elevados relacionados ao uso e à manutenção dos veículos particulares. O pesquisador destaca ainda as evidências que relacionam a poluição do ar ao aumento das internações por problemas respiratórios e cardiovasculares.
Metrô como eixo de bem-estar e inclusão social
Para Saldiva, a saúde deve ser considerada um fator determinante nas decisões relacionadas à expansão das linhas metroviárias.
O planejamento urbano estruturado ao redor dos trilhos tem potencial para transformar as cidades. Entretanto, o crescimento imobiliário nas áreas próximas às estações precisa estar associado a políticas públicas integradas.
“Não se pode aumentar o valor do solo a ponto de afastar as famílias de menor poder aquisitivo das regiões onde habitam. É essencial que prefeituras e governos garantam parcerias com o setor imobiliário e habitacional para prever moradias acessíveis a todas as classes sociais, transformando o metrô em um instrumento efetivo de inclusão e equidade, e não apenas de gentrificação”, afirma.
A reflexão apresentada por Saldiva durante a 32ª Semana coloca em discussão também os efeitos da valorização imobiliária gerada pela implantação da infraestrutura metroferroviária. Para o pesquisador, os diferentes setores beneficiados pela presença do transporte sobre trilhos podem desempenhar papel complementar no desenvolvimento urbano.
Entre os exemplos citados está a possibilidade de participação do setor farmacêutico em ações relacionadas à acessibilidade nas proximidades de grandes equipamentos de saúde.
“Na chegada sobre trilhos às imediações do Hospital das Clínicas, há necessidade da instalação de elevadores para auxiliar pacientes, que poderia ser feita pela indústria farmacêutica para facilitar o atendimento. Isso vale para hospitais em geral de grande movimentação”, explica Saldiva.
Metrô como instrumento de longevidade
A aproximação entre iniciativa privada e sistemas metroferroviários já possui exemplos em São Paulo. Um deles é a comercialização de naming rights de estações.
A estação Saúde, da Linha 1-Azul, passou a utilizar a denominação Saúde–Ultrafarma a partir de 2022, em contrato de naming rights. Relatório do Metrô de São Paulo registra o contrato com vigência de dez anos.
Para Saldiva, entretanto, a discussão pode avançar além de ações relacionadas à marca e considerar novas formas de colaboração para infraestrutura e desenvolvimento urbano.
A legislação brasileira permite a participação de organizações privadas em modelos como as Parcerias Público-Privadas (PPPs), observados os procedimentos legais e licitatórios aplicáveis.
“O sistema metroferroviário transcende o conceito de infraestrutura de transporte; ele é um pilar estrutural do planejamento urbano que, aliado a políticas de saúde, pode guiar as cidades rumo a um modelo de longevidade e humanização”, defende o especialista.
O debate ganha ainda mais relevância diante do Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano — Lei nº 15.432, de 13 de junho de 2026, que estabeleceu novas diretrizes para o transporte público coletivo urbano no país.
Para Saldiva, existe espaço para ampliar a discussão sobre fontes de financiamento e sobre como diferentes setores da sociedade podem colaborar com a infraestrutura de transporte, especialmente quando seus benefícios ultrapassam a mobilidade e alcançam questões relacionadas à saúde, à qualidade de vida e ao desenvolvimento das cidades.

